Sou tão vazio que nem sirvo para o tráfico de órgãos.
Sinceramente nem sei qual é a minha função, já nem tristeza sei
sentir,
é como se tivesse compactuado numa lobotomia em que me fossem
retiradas as partes do cérebro responsáveis pelas emoções,
o que é triste, sinto que é triste não saber sentir tristeza.
Talvez eu seja só uma máquina desenvolvida para produzir arte,
arte que produza desenvolvimento nas restantes máquinas comuns,
e arte que me torna uma máquina auto-suficiente, autónoma, pois a
minha alimentação/combustível é o que escrevo.
O meu coração é robotizado e, cada vez que bombeia, não bombeia
sangue, mas sim poesia.
Talvez o meu trabalho seja dar cor a uma Terra pálida,
onde quebrar regras é uma merda válida,
seja as da sociedade, politicas, judiciais, jurídicas,
só sei que as da sociedade todos podem quebrar, as restantes só
compradas.
Acho que tenho também a estúpida função de elaborar planos
utópicos, que os engenheiros analisam e rejeitam.
Nesta fábrica que é o Mundo, máquinas como eu ganham pó, ganham pó
porque os engenheiros decidem que não valem a pena estarem ligadas porque nas
suas perspectivas as nossas funções são dispensáveis.
Pena que muitas máquinas como eu trabalham uma vida inteira sem
retorno, que é o meu caso, muitos artistas morrem para que os vendados
idolatrem falsos cantores de metal, rock, pop, qualquer estilo, que deixam de
sê-lo no final dos concertos.
Artista não é um momento, é uma forma de vida.
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